Sábado, Novembro 26, 2005

Da Constituição Europeia à "Constituição Europeia"


Europa…Geograficamente é um cabo avançado do continente asiático. Historicamente não há um passado europeu; existe sim um registo histórico dos povos europeus.
A Europa existe ? Não ! E o passado recente prova que dificilmente existirá no futuro.
O que tem vigorado ao longo dos milénios é uma certa “Ideia de Europa”, que pode ser divida em quatro grandes períodos: período mitológico, período religioso, período filosófico e finalmente período político institucional.
O período mitológico remonta à fase helénica da Antiguidade, em que baseado na lenda em que Zeus, sob a forma de touro, tomou Europa, uma heroína, e com ela voou para Creta. Este conceito de “terra da frente” levou Heródoto a catalogar os três continentes conhecidos pelos gregos: Europa, Ásia e África.
O período religioso remonta do Pré Renascimento, até ao século XVI. Autores como P.Bois ou Dante, sob a égide de um Papa ou de um monarca, promovem uma política de paz duradoura, e um quadro institucional para a Europa.
No período filosófico a Ideia de Europa demarca-se da Cristandade. Autores como Kant, Montesquieu ou Voltaire, baseados nos princípios Iluministas defendem a criação de uma consciência europeia, baseados em princípios pacifistas e de ética/moral humanista.
Por fim o período político institucional resulta da decadência da potência europeia, antes hegemónica, acentuado nos pós guerras mundiais. Baseado em princípios de natureza filosófica e religiosa, as elites europeias desenvolveram uma Ideia de Europa, em que a região ganha estatuto de ente independente no contexto internacional, mormente no domínio económico.
Em síntese, a “Constituição Europeia” hoje em debate, nada mais representa que o produto do processo da constituição europeia de uma Ideia de Europa.



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Quinta-feira, Novembro 24, 2005

Reforma Fiscal Ambiental - Conceito e Objectivos


Há muitos anos que os instrumentos económicos na política de ambiente são defendidos tanto pela doutrina científica, como em documentos programáticos estratégicos: a nível internacional, os trabalhos preparatórios da Eco 92 e os estudos sobre instrumentos económicos de ambiente da OCDE; na União Europeia, o relatório Delors e os sucessivos programas comunitários de Ambiente; em Portugal, a Lei de Bases do Ambiente de 1987 e o Plano Nacional de Política de Ambiente.
A Reforma Fiscal Ambiental (RFA) é uma campanha a nível europeu desenvolvida pelo EEB (Secretariado Europeu do Ambiente) e adoptada, em Portugal, pelo GEOTA.
O nosso sistema fiscal actual assenta sobretudo em taxar os rendimentos do trabalho, que são efeitos esperados do sistema de produção (os chamados goods). Mas durante o acto produtivo e o consumo geram-se externalidades negativas (bads).
A RFA tenta integrar no sistema fiscal as questões ambientais, criando impostos sobre a utilização dos recursos naturais em substituição da carga de impostos sobre o trabalho. No cerne da RFA está a ideia de aliviar a tributação sobre o rendimento do trabalho e a remuneração de capitais (por ex.: IRC ou contribuição para a segurança social) e começar a tributar as actividades e produtos que contribuem para a degradação ambiental (produtos e actividades poluentes). Esta transferência leva a um duplo dividendo: por um lado cria-se um incentivo à despoluição e, por outro, reduz-se o custo do factor produtivo trabalho, levando a um efeito positivo de redução do desemprego e de aumento do investimento em actividades menos intensivas do ponto de vista de utilização de recursos ambientais, promovendo a inovação tecnológica.
O conceito de Reforma Fiscal Ambiental não é estável e legalmente consagrada. Genericamente pode definir-se como um reestruturação fiscal, por muito estrita que esta seja, com vista atingir objectivos de cariz ambiental e sustentabilidade económica.
Para os autores a Reforma Fiscal Ambiental é entendida em sentido amplo e profundo, que contempla uma redefinição do sistema fiscal, orientando os agentes económicos para boas práticas ambientais, contribuindo deste modo para a solvência dos problemas de poluição, degradação ambiental e eficiência
energética. Simultaneamente, apela esta Reforma Fiscal Ambiental para o combate ao desemprego e a aplicação de inovações tecnológicas limpas.
Em síntese, poderemos dizer que a RFA patrocina uma deslocação dos impostos das “value adding activities” para as “value depleting activities”.
Neste contexto, podem-se definir três grandes objectivos para a Reforma Fiscal Ambiental:
1) Modificação de processos produtivos e comerciais, objectivando a melhoria da eficiência dos consumos e utilização de processos produtivos não poluentes e energéticos mais limpos e eficientes;
2) Alteração das estruturas produtivas, ventilando tributação do factor capital para consumos poluentes, energeticamente ineficientes e de rápido desgaste de recursos naturais escassos;
3) Alteração comportamental, que resulte no fim do paradigma do consumismo, em prol da qualidade de vida.
Autores (GEOTA)
Ana Simões, Carlos Sacramento, Hélder Careto, Joana Prates, João Joanaz de Melo, Luísa Madruga
Manuel Ferreira dos Santos,
Autores (U.Évora)
Nuno Gomes Ferreira, Palmira Lacerda


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Sexta-feira, Novembro 18, 2005

A Rede de Transportes no Alentejo


Os portugueses conservam a tradição do dilema da ponte: quando estão a meio não sabem para que extremidade se devem dirigir. E enquanto manifestam a sua incapacidade de se decidir vão tecendo divagações sobre qual o melhor caminho.
Por vezes, esquecemo-nos que há outras opções.
Este é o cenário que se tem assistido com os projectos da Ota e do TGV, com o seu avança, não se avança.
Estamos na fase em que se esgrimem argumentos, e se contam espingardas para as batalhas políticas que se avizinham no horizonte.
O presente texto pretende dar o seu contributo para o debate, numa perspectiva centrada na problemática dos transportes, na região alentejana, não numa visão binária, mas colocando novas variáveis alternativas.
Ao considerar as duas variáveis – Ota e TGV – põem-se em causa duas alternativas de transportes; o aéreo e o ferroviário.
Como é sabido essas vias de mobilidade, não são únicas, e porventura não serão as mais importantes no Alentejo.
A par destas alternativas de transporte, temos as vias fluviais e rodoviárias.
Não trazer a terreiro estas hipóteses é inquinar um debate que se quer sério e elevado.
A análise de uma rede de transportes, não pode pois ocultar estas faces do poliedro.
Começando pelo transporte marítimo, as estatísticas provam que esta é o meio pelo qual a maioria das matérias-primas, e em particular as de ordem energética chegam ao nosso país.
Sendo Portugal dependente do exterior, do ponto de vista energético, a melhoria das condições nos seus portos deveria ser uma prioridade nacional.
O nosso país sempre que se virou para o Mar obteve sucesso; e de resto pouco adianta neste particular, falar da Europa.
É que vindo do oceano, Portugal será sempre a primeira fronteira, vindo do resto do continente somos os últimos … ainda haverá dúvidas de qual deve ser a opção estratégica neste domínio ?
Neste enquadramento o Porto de Sines assume relevância estratégica. A estrutura tripartida dos nossos portos do Sul (Lisboa, Setúbal e Sines), deveria dar uma estrutura única com o centro de decisão centrado na costa alentejana.
Sendo esta uma zona de expansão potencial, nela poderia ser implantado o nosso cluster marítimo, que nos permita explorar o nosso hipercluster do mar, actualmente sub aproveitado.
No tocante ao transporte rodoviário, o confronto centra-se nas SCUT.
Mas, já se esqueceram que pagamos portagens nas auto estradas no Alentejo ?
O debate não deveria ser o pagamos, não pagamos, que termina sempre com os bloqueios políticos, a que se seguem os físicos, como os da Ponte 25 de Abril.
Se os eixos viários fossem devidamente rentabilizados, já não se colocaria a questão do pagamento; esse seria o tributo de um serviço.
Surge sob este pano de fundo a necessidade de se criar um entreposto rodoviário TIR na zona das Vendas Novas, como gerador de sinergias para o Alentejo Interior, suficientemente próximo da capital que lhe permite funcionar como armazém de retém, e a caminho do nosso fluxo comercial com Espanha.
Este modelo encontra fundamento na ciência económica, que defende o apoio público a projectos regionais estruturantes, ao contrário das SCUTS, que só marginalmente geram desenvolvimento regional.
Sobre o transporte ferroviário, já tanto foi escrito, que pouco há a dizer; houve um erro estratégico passado com a utilização da bitola ibérica, que ia transformando a península numa ilha ferroviária. A viabilidade do projecto TGV depende não tanto do transporte de passageiros, mas mais do transporte de mercadorias.
A questão central para o Alentejo é : se a rede de transportes no Alentejo (fluvial, rodoviário, ferroviário e aéreo) estiver devidamente estruturada fará sentido o investimento no TGV ?
E se os custos de estruturação da rede de transportes forem inferiores aos do TGV ?
As dúvidas são mais que as certezas, e em caso de dúvida a prudência deveria de ser boa conselheira.
Mas, por hipótese tenhamos como boa a alternativa do TGV; sem dúvida que a passagem/paragem em Évora é uma vantagem competitiva para a cidade. Mas, mais que para a cidade, deve de sê-lo para a região, sob pena de se estar a criar um elefante branco regional.
Por fim, o transporte aéreo, com o aeroporto da Ota. É sabido que o relevo da zona não é favorável (final da serra do Montejunto e proximidade com o monte Redondo o que implica o uso alternado de pistas).
O seu efeito na zona alentejana, face à Portela é despiciendo, senão mesmo negativo. A localização do transporte aéreo não tem sido estruturante para o desenvolvimento regional alentejano.
Mas terá de ser sempre assim ?
Não deveria ter o Alentejo uma palavra activa na definição da rede de transportes nacional ?
Se pode haver uma estratégia de desenvolvimento da rede de transportes nacional, centrada na parte Sul do Tejo, com a zona portuária de Sines, um eixo ferroviário de Alta Velocidade, e artérias rodoviárias assistidas por entrepostos, porque motivo se coloca o aeroporto na zona Norte do Tejo ?
Em conclusão, a rede de transportes Alentejana, demonstra potencial de desenvolvimento. Ao contrário do debate público actual que se centra nos meios ferroviários e aéreos, o Alentejo deve centrar o debate da sua rede de transportes nos meios fluviais e rodoviários, e recolocar estas alternativas na agenda política nacional. Só deste modo, a região alentejana poderá assumir-se como centro de decisão num contexto de desenvolvimento estratégico regional. Ao lançar novos cenários e alternativas de meios de transporte, o Alentejo ultrapassa o dilema nacional, de qual lado da ponte nós devemos estar, na questão da Ota e do TGV e assume uma postura pró activa de afirmação. Deste modo, o Alentejo assumirá a sua singularidade, personalidade e existência, ultrapassando o seu dilema de Hamlet (ser ou não ser ?) nas redes de transportes nacional.


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Quarta-feira, Novembro 16, 2005

A Geopolítica dos Conflitos em França


Os recentes conflitos, ao que se junta a rejeição do Tratado Constitucional, voltaram a colocar a terra de Voltaire no epicentro europeu e não pelos melhores motivos: a França ainda não decidiu se quer ser europeia ou dominar a Europa.
No entanto, e numa perspectiva eurocêntrica as convulsões francesas têm a sua origem na divergência conceptual, de natureza geopolítica, entre flanco e fronteira.
A questão dos flancos europeus, associa-se à sua política de vizinhança; no entanto, o conceito de flanco (conceito militar) não se confunde com o de fronteira (conceito político).
Mais que novas fronteiras, a Europa deve redesenhar os seus velhos flancos, pois só estes garantem a sua contiguidade geográfica e a mobilidade física.
O registo histórico da Europa revela a existência de dois flancos frágeis; a Oriente e a Sul. Os dois flancos articulam-se, em função da sua relação com a Europa (rica, mas com fronteiras permeáveis e vulneráveis).
A riqueza europeia contudo é uma falácia; a Europa consome mas não produz, pelo que o modelo é insustentável a prazo.
A permeabilidade das fronteiras, dado serem fluxos de pessoas com menos recursos, resulta no empobrecimento médio europeu, que agrava a crise produtiva europeia de longo prazo. Mais assim, os fluxos demográficos têm duas tendências estruturantes; por um lado vão continuar, por outro, vão intensificar-se.
Apesar dos critérios económicos dos fluxos demográficos serem similares, as respectivas estruturas são assimétricas; o alargamento a Leste, resolve em parte o problema, dado as pirâmides demográficas dos PECO (Países da Europa Central e Oriental) serem similares aos dos restantes países membros da União Europeia. O problema grave e sério é o flanco Sul, dada a respectiva composição ser diversa da Europeia, nomeadamente, ao nível das taxas de natalidade.
A fragilidade dos flancos europeus, (mais que a falência do modelo social europeu, que é a sua consequência) são a génese geopolítica dos acontecimentos que se iniciaram em Paris. A dupla pressão demográfica de Leste e de Sul, demonstra que a sociedade europeia é multicultural, multiétnica, mas do Multibanco também… E quando o saldo acaba…

Nuno Gomes Ferreira

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Sexta-feira, Novembro 11, 2005

Matriz Estratégica dos Programas Eleitorais



1. Introdução – Formar informando

A liberdade de imprensa e a democracia, são dois vectores que se interceptam nas sociedades livres do tipo ocidental.
Em período eleitoral, deve a imprensa, nas suas diversas formas, assumir uma postura não de contrapoder, mas de estímulo à participação cívica.
A independência e autonomia académica, é outro dos pilares estruturantes da nossa democracia.
A junção de uma imprensa livre e uma reflexão de cariz académico, resulta no binómio formação-informação, em que ao cidadão interessado sejam facultados elementos informativos e quadros teóricos, que permitam uma decisão de natureza política.
Este artigo tem pois a função de formar informando, permitindo aos eleitores adquirir um instrumental técnico, que lhes permita colocar uma cruz num boletim de voto, não com a leviandade com que se risca um boletim de totobola, em que queremos sempre que a nossa equipa ganha, mas de modo crítico e civilizado, escolhendo entre programas ( e não candidatos) alternativos.

2. Os programas eleitorais como componentes de uma estratégia

Um programa eleitoral, é sempre um estudo estratégico, destinado à avaliação do posicionamento de um conjunto de Estados (eleições supra nacionais), apenas de um Estado (eleições nacionais), ou de uma região dentro de um estado (eleições locais).
Em sentido lato, um programa eleitoral deve ser composto por dois fundamentos teóricos estruturantes:
a) Geopolítica;
b) Prospectiva.

3. Geopolítica nos programas eleitorais

O primeiro destes vectores, a geopolítica, refere-se ao tratamento do espaço ao longo do tempo, em termos dinâmicos.
O Homem actua sofre a geografia como uma praga, sendo os seus comportamentos de tipo predatório para com os elementos naturais.
O controlo dessa tendência natural é mais que uma necessidade política, um imperativo de natureza biológica sob risco de colocarmos a nossa existência em causa.
A análise geopolítica de um programa eleitoral articula quatro noções elementares em qualquer actividade humana;
. Espaço
. Tempo
. Poder
. Riqueza
A noção de espaço num programa eleitoral deve comportar análises em diversas escalas:
- Integração de sub-espaços (ex: freguesias) num contexto regional (ex: municípios);
- Inserção de uma região em esferas de influência à escala nacional;
- Projecção de uma região à escala supra nacional (ex. através do Comité das Regiões)
Todas estas diversas escalas devem ser contempladas na matriz de construção/leitura de um programa eleitoral autárquico.
A componente tempo, remete-nos para duas ópticas diversas (excluindo-se por agora a prospectiva);
a) Registo histórico;
b) Enquadramento de referência.
O registo histórico, não é a História do tipo factual. O registo histórico, são os traços profundos do passado, que se reflectem no presente. Um programa eleitoral, não pode olvidar a memória colectiva de um povo, ou região. Se não houver respeito pelos nossos antepassados, não o haverá com toda a certeza para os nossos descendentes.
O enquadramento de referência, em termos temporais, equivale ao momento presente. Podendo sermos tentados a considerar esta variável como a de mais fácil obtenção, incorremos no risco de subavaliar a recolha de informação completa.
Um programa eleitoral, é um instrumento de recolha metódica da informação disponível. Um programa sem informação completa será sempre um programa omisso.
A variável poder resulta do exercício de competências num quadro de execução de funções governativas. Um programa eleitoral deve respeitar as competências atribuídas aos orgãos sujeitos a eleição. As promessas eleitorais devem ser enquadradas à luz do ordenamento jurídico vigente, sob pena de se cair na demagogia pura.
Por fim a riqueza. Esta deverá ser compreendida, não apenas como o stock de recursos disponíveis, num dado momento, mas também o seu valor potencial ou futuro.
A elaboração de uma proposta eleitoral autárquica, deve fomentar a criação de uma rede de valor regional, maximizando os recursos existentes, e deles conseguindo extrair mais valias não só económicas, como sociais e políticas.

4. Prospectiva nos Programas Eleitorais Autárquicos

Um programa eleitoral é sempre um exercício prospectivo, que se baseia num conjunto de variáveis geopolíticas, objectivando a criação de um cenário.
A cenarização de um quadro político, é muito influenciado por princípios de ordem ideológica (liberdade vs centralismo, livre concorrência vs serviços sociais, etc.), aos quais os candidatos se propõem atingir.
Sobretudo, convém balizar quais os objectivos ideológicos contraditórios entre as diferentes escalas do poder político.
No plano nacional as variáveis de avaliação são:
- Taxa de desemprego;
- Taxa de crescimento económico;
- Taxa de inflação.
No plano autárquico, sendo certo que as componentes supra mencionadas são relevantes, não são as de primeira ordem.
Essas serão:
- Qualidade de vida (ambiente, urbanismo, segurança)
- Valorização patrimonial da região (cultura, património histórico, desporto);
- Desenvolvimento regional sustentável (inserção da zona em cadeias de valor acrescentado sustentáveis)
Usualmente, a análise prospectiva dos programas eleitorais assenta num conjunto de promessas. Essas funcionam como declarações de intenção, por parte dos candidatos, que executam de acordo com a implementação de linha as actuação pré definidas.
Aos eleitores é pedido que face a estas mantenha algumas reservas. Em particular, requer-se que façam uma análise dos seus conteúdos e verifiquem os pressupostos de gestão autárquica que fundam os programas.
Menos comuns, por força dos ciclos políticos nacionais, mas também usados são os objectivos programáticos. Estes não sendo promessas eleitorais, do tipo clássico, por vezes confundem-se com estas. Esta tipologia de objectivos resultam de uma acção prolongada do agente político no tempo, por um período superior ao seu mandato. A vida das pessoas não se compassa com o ritmado político. Por isso, há projectos que pelo seu carácter estruturante requerem mais que um ciclo político, mas cujo conteúdo deve ser dado ao conhecimento dos cidadãos ao abrigo de programas eleitorais.
Por fim alerta-se o cidadão-eleitor para a componente risco, associada aos programas eleitorais; como instrumento de cenarização, o programa eleitoral é efectuado em regime de incerteza. Uma catástrofe climatérica, a descoberta de uma nova fonte de riqueza regional, ou outro evento similar por norma não estruturam a elaboração de manifestos eleitorais. Contudo, o eleitor atento deve neles encontrar meios de minimizar esta componente.

5. Conclusão
Os programas eleitorais são documentos dirigidos aos cidadãos, sob formas simples de estruturação, de acordo com políticas sectoriais (ambiente, desporto, cultura, urbanismo, segurança).
A tentação dos eleitores é de comparar as diferentes matrizes das forças políticas em pleito, de acordo com essa estrutura. Esse é o modo como os partidos querem que o eleitor haja, pois esta visão é redutora do espectro político
Mas não é assim que o votante deve actuar; cada política sectorial obedece a uma matriz estratégica, fundada em princípios de geopolítica e prospectiva.
O presente escrito pretendeu dar um contributo aos eleitores interessados e facultar-lhes uma compreensão diversa do modo como podem ser entendidos os programas eleitorais.



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Quinta-feira, Novembro 10, 2005

O Risco Geopolítico do Interior Alentejano


O desenvolvimento das cidades será o facto substantivo no século XXI.
Na realidade, salvo o período claro de predominância do Estado Nação, a Cidade foi o pólo principal de desenvolvimento humano.
Com o desenvolvimento dos núcleos urbanos, deu-se o aparecimento das Cidades Estado, cujo o exemplo é a antiga Atenas.
Com o aparecimento de Roma nasce um novo conceito de cidade; a Cidade Imperial, primeiro com o império romano e posteriormente com o império turco otomano, com a capital em Constantinopla.
Os conflitos decorrentes da sociedade feudal, e a emergência do Estado Nação faz a cidade enquanto pólo de desenvolvimento atravessar a sua Idade Média.
Se a cidade é a regra, o conceito de Estado Nação é a excepção.
Com o advento do federalismo, como elemento supra nacional, e os processos de descentralização administrativa, no plano nacional, o Estado Nação começa a ficar vazio de competências.
O registo histórico informa-nos que Lisboa, foi uma capital de um império no decurso dos Descobrimentos, mas não foi uma cidade estado no sentido clássico do termo.
Este vazio histórico ainda hoje se nota quando se quer determinar os limites da Área Metropolitana de Lisboa.
Associado a esta problemática está igualmente associada uma questão de dimensão.
As cem maiores cidades do mundo têm cerca de 6 milhões de habitantes.
A zona metropolitana de Lisboa, atinge apenas cerca de metade desse valor.
Para Lisboa atingir massa crítica, enquanto metrópole à escala global, teria que estender toda a sua área metropolitana pelo Litoral Centro e Norte.
Contudo, o crescimento e confluência da área urbana de Lisboa sofre um enorme constrangimento; o parque natural Sintra Cascais.
Isto significa que todo o desenvolvimento citadino deveria seguir o eixo norte do Tejo, utilizando a radial de Vila Franca de Xira e desviando-se da região de Sintra.
Com base neste modelo de desenvolvimento regional, foi realizada a Expo 98 e é ponderada a hipótese de ser construído um aeroporto na Ota, e uma variante do TGV no Entroncamento.
Dada a dificuldade de expansão a Norte da capital Lisboa, uma alternativa do desenvolvimento da Área Metropolitana de Lisboa será o seu crescimento a Sul, tendo como base o triângulo, Lisboa – Faro – Portimão (vértices da “Grande Ogiva do Sul”)
Encontram-se nesta perspectiva , uma terceira passagem sobre o Tejo, a possível passagem do TGV pela Península de Setúbal, as acessibilidades marítimas dos portos de Sines, Setúbal e Lisboa, bem como a possibilidade ainda que remota do novo aeroporto de situar em Rio Frio.
Neste cenário o Interior Alentejano, não se consegue assumir como pólo geopolítico de referência, no contexto nacional.
Urge à região definir os seus pontos fortes estratégicos e mobilizar o seu potencial endógeno, de modo, a criar novas centralidades (Évora, Beja, Portalegre) regionais, que se assumam num novo quadro de referências nacional.
Este é um desafio de longo prazo, cujos passos devem seguros e firmes, requerendo o empenho e consenso regional.
O rejuvenescimento da população, e a sua formação superior, a criação de um tecido empresarial, capaz de fixar as gentes do interior alentejano, assente em serviços de elevado valor acrescentado, são mais que um desafio, são um desígnio que é fundamental cumprir.
A não ser assim, o Interior Alentejano corre o risco geopolítico de ser “sugado” pelo desenvolvimento da Área Metropolitana de Lisboa, e o desenvolvimento regional ser apenas uma miragem.



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Quarta-feira, Novembro 09, 2005

Espanha, Espanha, Espanha !!!


A realização da próxima cimeira ibérica em Évora é momento propício para uma breve reflexão sobre as relações bilaterais entre Portugal e Espanha.
A relação entre os Estados Ibéricos tem um substrato histórico multifacetado e com incidência directa na constituição e existência de Portugal. É uma dimensão específica do contexto internacional português que tem de ser permanente gerida, e que face à sua densidade secular os portugueses não podem perder de vista.
As relações Portugal Espanha passaram por quatro modelos básicos:
1) Distanciamento deliberado;
2) Alterações limitadas em resultado do acordo EFTA/Espanha em vigor em 1980;
3) Uma concepção pré-adesão à CEE em que Espanha é o nosso 11º fornecedor e comprador num cenário CE12;
4) Um proto-modelo em formação desde 1986, pós-adesão à CEE, em que Portugal se confronta com a transferência dos poderes de decisão para Espanha.
No quadro actual, não é possível, nem sequer aconselhável o retorno a uma política de “distanciamento deliberado”. É fundamental a penetração portuguesa no mercado espanhol. Este esforço foi tornado evidente quando José Sócrates reclamou como prioridade da política externa portuguesa, o célebre “Espanha, Espanha, Espanha”.
Mesmo no simples plano económico, Portugal deve ter uma estratégia geral de jogar em “múltiplos tabuleiros”, e não discutir assuntos isolados, como sejam os recursos hídricos, o TGV ou o mercado ibérico da energia. Pelo contrário, deve ser feita sempre uma “abordagem global”, não tratando os problemas económicos sob pressão política simultânea.
Em particular, Portugal deve tirar partido da importância marginal que representa para Espanha (a França é o seu vizinho mais apetecível), em termos económicos, e em paralelo, o facto de em condições normais, os espanhóis não terem interesse, ou conveniência em gerir problemas políticos sérios com Portugal.
Por fim, seguir uma estratégia de desenvolvimento económico e social que permita a apreciação das relações com a Espanha no quadro geral da internacionalização da economia portuguesa; e responder activamente à penetração económica e cultural da Espanha em África e na América Latina.


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Terça-feira, Novembro 08, 2005

As Relações Luso Brasileiras


As relações Portugal-Brasil são um misto de saudade pelo passado histórico; primeiro como colónia imperial, depois como capital do Império e por fim como Estado Independente; e de esperança de projecção dos portugueses no Mundo pós-moderno.
É uma relação duplamente essencial, que foi deixada enfraquecer desde a paragem da emigração portuguesa na primeira metade do século XX.
Contudo, a posição do Brasil no contexto geopolítico português é de todo relevante. Desde logo porque a Nação Brasileira é um "proto-pólo emergente", mais assim, o Brasil não necessita de Portugal para actuar (eventualmente poderá retirar vantagens adicionais), podendo ser Portugal uma plataforma para estreitamento de relações Brasil-Europa-União Europeia.
Deste modo, cabe a Portugal desenvolver uma política (inteligente) de aproximação, com vantagens recíprocas comuns, fundadas na geopolítica da "diagonal do Atlântico".
Fundada em interesses económicos comuns, Portugal e Brasil, deverão apostar em modelos de triangulação com vértices na Europa e África. Tal relação futura não deveria de resto ser difícil de implementar, pois o Brasil é o país que nos últimos cinco séculos Portugal teve mais interesse e profunda relação económica, social, política e histórica.
É pois essencial para os Portugueses conhecer e compreender a visão brasileira do Mundo, em suma, a "Geopolitica Brasileira" na era da globalização e a emergência de interesses diversificados e complexos dos brasileiros, fora do continente americano.
Em síntese, defende-se que as relações Portugal-Brasil ultrapassem o mero floreado literário de pieguice sentimental e de hipocrisia de circunstância.
Urge uma valorização dos interesses comuns, baseados numa língua e numa cultura, assentes numa relação económica forte e um desígnio político de actuação conjunta, num esforço recíproco de afirmação de ambos.
Estarão as nossas elites dirigentes à altura ?

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Sexta-feira, Novembro 04, 2005

Estado Nação vs União Europeia: O Caso Português


1. Introdução
Defender a Ideia de Europa num contexto de intervenção social, neste dealbar do séc. XXI, implica reconhecer, na senda de Daniel Bell que o Estado a que chegamos é, ao mesmo tempo, pequeno demais para as grandes coisas e grande demais para os pequemos problemas da vida. Ele é pequeno demais para resolver os grandes problemas do nosso tempo (economia, segurança, ambiente, tecnologia) e, para o efeito, sob o alento da aldeia global, vamos tentando projectar e construir, por todo lado os grandes espaços. Mas também é grande demais, pelo menos quanto à participação política e à humanização do Poder, e muitos vão exigindo desconcentração, desregulamentação, descentralização e regionalização. Sob o pano de fundo do terminus da era das ideologias, fruto da conclusão da guerra fria e queda do Muro de Berlim, há uma emergência do regresso à política, fundado no retorno da res publica, e uma reinvenção da cidadania.
Na (re)construção do grande espaço europeu, a História longa da Ideia de Europa na busca da tradição descobre o primado da contradição. À procura da Nação-estado, descobrimos o Estado-Nação. À procura da união mais estreita entre os povos da Europa, descobrimos o construtivismo europeu.
2. A História Longa do Estado-Nação
O Estado Nação é uma criação originalmente europeia, sendo hoje a unidade política fundamental nas relações internacionais, em resultado da sua exportação da Europa para o resto do mundo.
Produto europeu pós-feudal, o Estado Nação afirma-se através de uma ideologia, uma estrutura jurídica, a capacidade física de impor uma soberania, sobre um povo, num território delimitado por uma fronteira, dispor de uma moeda única e de ter à sua disposição forças armadas próprias e diferenciadas. O Estado Nação é geneticamente conservador e potencialmente totalitário, chamando ao seu poder todas as formas de actividade humana, pelo que requer mecanismos de compensação a partir da sociedade civil.
A tradição dos contrários, essa energia criadora da "História Universal Europeia" está presente em todos os seus grandes momentos. Começando o nosso périplo, a aventura começa na Antiguidade Clássica, na Grécia Antiga. Da polis, da democracia e do cidadão. Mas também da desordem e do vazio social. A Europa antiga é mediterrânica e não europeia. Nasce na sua própria periferia e não no seu centro. Emerge numa base humanista clássica: o Homem é a medida de todas as coisas.
Tradição filosófica e intelectual que Roma se encarregará de adoptar e reproduzir. Os nossos inimigos de ontem serão amanhã os cidadãos de Roma, segundo o ideal romano de fazer do mundo inteiro (de então) uma única pátria. A conquista romana faz-se independente da nação geopolitica da Europa. A noção de império universal é pois anterior às noções de estado e nação, como anterior o é a noção de cidade. Porém, o humanismo pagão helénico-romano fruto de uma territoralização radica na força e carente de um sistema de poder, baseado no imposto e num exercito não fazia coincidir os conceitos de homem e de cidadão.
Do humanismo pagão, pelo contraditória nasce o humanismo cristão. De um lado o Homem é a medida de todas as coisas. De outro todos os homens são iguais aos olhos de Deus. O tempo de vida útil das cidades-Estado gregas e do império romano aproximava-se do seu fim.
Da fé e da razão, serão esses os próximos termos de tese e antítese da dialéctica historicista europeia. O ciclo longo da História Europeia, tende a cindir o poder espiritual do poder temporal e operar a transformação semântica de suserano (senhor feudal) em soberano (senhor monárquico). As monarquias teriam sido pois, as primeiras formas de Estado, a deter poder soberano, caracterizado por um controlo de uma força armada, a difusão de uma moeda, um sistema fiscal e uma burocracia. Abaixo de si o soberano tinha os seus súbditos e acima apenas o Céu.
Entre a reforma e a revolução é o próximo estágio desta evolução, onde a plebe como que terá calçado as botas do Príncipe, sem no entanto modificarem a centralização do Estado e a concentração do poder público. É neste contexto que Jean Bodin teoriza a divisão de poderes (executivo, legislativo e judicial). A soberania não emana de um indivíduo, mas de uma superestrutura que o suporta. É a substituição do poder da espada pelo poder da lei. As revoluções democráticas inverteram os eixos axiomáticos da soberania: o princípio da legitimidade vertical (absolutista) deu lugar a uma legitimidade horizontal. Emergem as ideias de contrato social, e interesse geral erigido por Jean Jacques Rosseau. A liberdade do Estado Natural, dá lugar à liberdade do Estado Civil, que em perfeita igualdade com os outros, o indivíduo se torna integrante do soberano enquanto cidadão. Rapidamente se encrosta o conceito de Nação, ao Estado. Contudo, se o Estado é a unidade o território é a diversidade. Este conceito de territorialidade vestefaliano, longe de preparar a paz gerou a guerra.
De Versalhes a Ialta, sobre duas ordens internacionais nascem soberanias de novo tipo; as soberanias populares, onde a dicotomia face ás soberanias nacionais resulta de uma democracia directa vs um sistema democrático representativo.
Com o fim da guerra fria e do mundo bi-polar, duzentos anos depois de 1789, sobre os espólios da democracia popular e do socialismo real falta quase tudo: o indivíduo-cidadão, a sociedade civil e o próprio Estado-Nação.
3. Portugal e a Defesa dos Interesses Nacionais na História Longa do Estado-Nação
Os ciclos longos da História de Portugal demonstram a nossa tendência secular para gerirmos a nossa dependência nacional e com ela gerarmos interdependências internacionalmente. O ser com os outros na comunidade internacional sempre potenciou o nosso Eu; sempre soubemos garantir a independência nacional e com ela projectarmos a nossa identidade no contexto internacional.
A independência afonsina, por exemplo, afirmou-se tanto na luta contra o Islão, em aliança com os Cruzados do Norte da Europa, como também na resistência ao projecto de Imperium então assumido pelos reis de Leão e Castela, ao mesmo tempo que procurava o reconhecimento internacional da Santa Sé.
Utilizando as palavras de Infante D. João transcritas por Gomes Eanes de Zurara, sempre procurámos ganhar o de além para não perdermos de aquém. Conscientes de estarmos contidos pelo muro de Castela, tratámos de obter na Conquista e na Expansão para além Mar, a garantia de autonomia na retaguarda.
Daqui decorrem as opções estratégicas da política externa portuguesa. Desde logo uma visão dicotómica entre Continente e Mar, que se repercute num afastamento estratégico em relação à Europa e ao Continente. Decorrente deste facto estão a primazia dada ao projecto colonial e à formação de alianças com a potência marítima dominante (Inglaterra).
Essa visão atlantista lusitana, associada ao seu instinto de sobrevivência originaram que se tenha transferido a capital para outro continente aquando das invasões franceses, ou que após o traumatismo causado pela perda do Brasil e quando nos embrenhávamos internamente numa espiral decadentista, procurássemos a construção do derradeiros império português, a partir das quase abandonadas feitorias da costa africana.
Em tese defende-se que tendo numa perspectiva de longo prazo, Portugal e a restante Europa (enquanto grupo de estados independentes) uma tendência histórica comum, o Estado-Nação, houve uma divergência no processo de constituição. Portugal com fronteiras europeias terrestres desde há muito definidas, encontrou no Atlântico os seus dotes expansionistas, pelo que se constituiu enquanto Estado-Nação de forma precoce e quase sem convulsões sociais, similares à Revolução Inglesa ou Francesa. Se quisermos a "Revolução Portuguesa" foi o terramoto de Lisboa de 1755, em que a voz do povo foi substituída pelos poderes quase ditatoriais do Marquês de Pombal. Os êxitos políticos que obteve reforçaram a sua posição e as políticas seguintes foram no sentido de modernizar Portugal. O choque do terramoto foi a origem desta ditadura decisiva para a modernização (embora com outros inconvenientes)
Conclui-se que nesta fase da nossa História, justaposta com a História longa da Europa, Portugal não entendia que os seus interesses podem-se ser europeizados. A intervenção portuguesa era notada mas visava apenas o garante da soberania nacional.
4. Uma Contradição Recente: Cooperação vs. Integração
A História longa da construção europeia produziu uma nova contradição no par cooperação integração.
A cooperação remete-nos para as organizações da "primeira vaga" da construção europeia. Fala-se neste particular da OECE, do Conselho da Europa e da NATO. Em todas estas organizações não existe uma transferência de competências para entidades exteriores, a cooperação é fundada em compromissos políticos cuja implantação compete aos Estados Membros.
A integração é em primeira instância um processo de formação e unificação dos Estados-Nacionais. A integração exige a transferência de poderes para uma entidade supranacional, as instituições supranacionais regem-se pelo voto maioritário, produz uma ordem jurídica própria superior às ordens jurídicas dos constituintes e os titulares dos cargos supranacionais são independentes do seu estado de origem. Não sendo um Estado, a Europa Comunitária radica nesta óptima integracionista de união de estados.
5. Integração Europeia – Do Federalismo Clássico ao Neo-Funcionalismo
Com o final da 2ª Guerra Mundial e o início da Guerra Fria surgiram as macroteorias da integração regional. No contexto europeu, surgiram as teses do federalismo, funcionalismo e neo-funcionalismo.
Na fase genética – Congresso de Haia, Declaração Schuman, Tratado de Paris (CECA) – Denis de Rougemont defendeu as teses federalistas da construção europeia, consubstanciadas na ultrapassagem do Estado-Nação ao nível supranacional (federação continental) e infra-regional (federação regional). Contudo, a morte embrionária da Comunidade Europeia de Defesa (CED) veio provar que o movimento europeu de inspiração federalista não conseguia responder a duas questões; primeira que conduziria à criação de um super-estado, absolutamente desnecessário numa fase de reconstrução dos Estados Nacionais, segunda que transformaria os Estados Nacionais em Estados Regionais.
As raízes funcionalistas remontam a David Mitrany que produzem uma síntese entre o modelo de integração federal, do qual retira o objectivo e a integração internacional de quem retira o método. Em vez de um novo contrato social, que decretaria a eliminação do estado de natureza das soberanias, opta-se pelo gradualismo da integração num novo centro supra-estadual de sucessivas soberanias anteriores, fazendo a fusão entre integração política e cooperação política. Este método de integração que se baseia nos efeitos spillover, também ficou conhecido como método Monnet. Poderemos dizer que Dennis de Rougemont representa uma linha de federalismo programático e Monnet um federalismo pragmático.
Como resultado das crises institucionais de integração, em particular, após o compromisso do Luxemburgo, Ernst Hass defende as teses neofuncionalistas, acrescentado um agente supranacional no processo, defendendo-se que a integração é um processo frágil, passível de recuos, as implicações políticas das decisões económicas são em grande medida aleatórias e que tão ou mais importante que os efeitos spillover é o processo de tomada de decisão comunitário. Em síntese dir-se-à que o neofunciomalismo de Hass se situa entre a fronteira do funcionalismo e do federalismo. Esta teoria perdeu o seu impacto devido às crises petrolíferas e o retorno do Estado Nação, tendo sido retomado por Delors naquilo que ficou conhecido como um neo-institucionalismo.

6. Portugal – A Opção Por Uma Cooperação Híbrida
Aderente, à União Europeia de Pagamentos e beneficiário quase por acidente do Plano Marshall, Portugal no decurso da 2ª Belle Époque, privilegiou a componente cooperação em detrimento da integração. Durante a fase crepuscular do Estado Novo, houve um hibridismo estratégico no plano internacional. A contradição entre a aposta ultramarina e a condescendência europeia, é notória no ano de 1960, pois enquanto assinava a Convenção de Estocolmo, instituidora da EFTA, participava na fundação da OCDE, aderia ao FMI e ao BIRD, promovia as comemorações henriquinas que justificavam a defesa do Império.
A aposta ultramarinista teve o seu clímax no integracionismo político económico do espaço português euro africano. Contudo, os ultramarinistas, mais natistas que a NATO e mais ocidentais que os EUA, cederam o lugar à dúvida metódica de um regime que passou a jogar num sistema de num pé cá, um pé lá.
7. Anos 70 – O Retorno do Estado Nação
A crise internacional dos anos 70 é também uma crise de conceitos e teorias. As teorias das relações internacionais ganham primazia sobre as teorias de integração regional. No domínio das teorias das relações internacionais cumpre destacar a interdependência internacional (R.Keohane e Joseph Nye) e o intergovernamentalismo (Stanley Hoffman).
A teoria da interdependência internacional é uma noção descritiva mais do que um conceito epistemológico instituinte ou constituinte. O intergovernamentalismo é simultaneamente um conceito defensivo e estratégico. Em primeiro lugar porque traduz o regresso ao primado da política interna. Em segundo, porque atribuí ao interesse nacional um valor negocial muito elevado. O intergovernamentalismo sublinha a indivisibilidade da noção de interesse nacional num contexto de crise, manifestando uma clara tendência para a unanimidade nas relações internacionais.
A crise petrolífera veio por um lado acentuar a dependência energética da Europa, e por outro demonstrar que a construção europeia estaria dependente da expansão ou recessão da economia. Numa fase de expansão o processo de integração seria mais rápido, na recessão a integração tenderia para a entropia e o regresso ao Estado Nação.
8. Portugal – A Caminho da Democracia
No início dos anos 70 e numa fase pré-revolução, o projecto europeu, não tinha para nós a dimensão heróica do europeísmo da Resistência. A outorga do Acordo Comercial de 1972, entendia a CEE como uma das formas possíveis de integração, com algum parentesco a uma zona de comércio livre.
Nos pós-25 de Abril a prevalência é de um europeísmo acrítico pelas massas, que balançava entre a CEE como sucedânea das Índias e Brasis perdidos e uma forma de invasão do capitalismo. As elites entendiam o projecto Europeu como uma forma de consolidar a democracia e o acquis comunitário era como que um "pronto a vestir" ideológico para consolidar o nosso mercado.
Nesta fase Portugal andou em contra ciclo. Fruto do processo revolucionário, Portugal tentou europeizar os seus interesses, num período em que o processo de integração estava em marcha lenta. A prova é o facto da Europa se Ter fundado com a ambição de alargar o crescimento económico a África. Portugal por seu turno integra a Europa exactamente no momento em que abandonava os territórios ultramarinos.
9. O Método Delors
Com a endogenização dos choques petrolíferos nas economias europeias, um novo impulso foi dado ao processo de integração. Retomando os princípios neo-funcionalistas, Delors promoveu um impulso institucional (um neo-institucionalismo) que pôs em marcha o mercado único, a coesão económica e social, a união económica e monetária e a união política da Europa. Centrado em objectivos de longo prazo, na crença de spillovers e na comunitarização, o método Delors promoveu uma racionalização das políticas públicas comunitárias, consubstanciadas no Acto Único Europeu, que originaram um ascendente sobre as políticas nacionais. Contudo, a desproporção entre os policy-goals e os policy-instruments originaram uma sobrecarga do sistema institucional europeu.

10. A Adesão de Portugal às Comunidades – Ou o Regresso à História
Com um processo negocial paralelo com a Espanha, a adesão de Portugal às Comunidades representou o seu regresso á História. Saído do processo revolucionário, o sistema estatal nacional sofreu uma profunda mutação passando-se de um estado interventor, ainda herdeiro dos princípios do Estado-Providência, para um Estado Regulador (destatização). Do Estado empresário caminha-se para uma desnacionalização (privatizações) da economia. A adesão dos países do Sul, representa igualmente o eclodir dos interesses nacionais no contexto europeu. A definição da política, em particular a política económica, torna-se num movimento pendular entre a Europa e Portugal. Delegando parte da sua soberania, Portugal conseguiu o seu regresso à História... antes do fim da História.
11. União vs. Estado Nação – Uma Nova Contradição ou Caminho Para Uma Sociedade Aberta ?
Com o fim do modelo bipolar, a Europa, através do Tratado do União, tentou definir o seu papel no novo sistema de relações internacionais. De uma potência regional, a Europa erguia ambições a potência mundial. Contudo, o gigante económico não passava de um anão político.
A União (Objecto Político Não Identificados) fundou-se nos Estados e Povos europeus, contudo, onde deveríamos encontrar uma Nação Estado depararmo-nos com um conjunto de Estados Nação.
Da análise do quadro I, em Anexo infere-se que ao nível da legitimidade não se pode operar uma troca de povos, soberanos e autoridades. A União segue pois a tradição de livre entrada e livre saída (opting out e é sempre possível estabelecer cooperações reforçadas). Quanto à territorialidade, não caminhamos para o fim dos territórios, mas antes para uma comunidade multinacional, que não será construída numa superestrutura de um Estado Multinacional. Caminhamos, talvez para uma sociedade sem Estado, um não paradigma, enfim uma sociedade verdadeiramente aberta. Quanto à juridicidade é natural que se continue a caminhar para uma harmonização mínima necessária, contudo, a produção supranacional será sempre um up grading do poder legislativo estadual.
Em conclusão, dir-se-à que não há qualquer determinismo estatal na construção europeia. União e Estado Nação são ambos produto da evolução histórica do processo de construção europeia. Tal como o municipalismo não morreu com o Estado Nação, este não morrerá com a União.
12.União – Dos Poderes Por Consentimento Aos Checks And Balances
Os poderes detidos pela União resultam de competências atribuídas pelos Estados, ficando estes despojados de parte da sua soberania. Ou seja, os poderes da União são poderes conferidos por consentimento. Se há competências que são exclusivas da União outras há que são concorrentes com os Estados Nacionais, tendo vindo o Tribunal de Justiça, numa postura pretoriana a captar poderes aos Estados Nacionais por preempção.
A União é composta por um tríptico institucional: Conselho de Ministros, Parlamento Europeu e Comissão Europeia. O Conselho representa os Estados da União, o Parlamento Europeu representa os Povos e a Comissão uma forma híbrida de "governo da união". O poder judicial é exercido pelo Tribunal de Justiça.
Enquanto no Estado Nação encontramos uma divisão de poderes tipo Bodineana (legislativo, executivo e judicial) na União estamos perante uma justaposição de poderes. Assim, existem três poderes legislativos (Conselho de Ministros, Parlamento Europeu e Comissão), dois poderes executivos (Conselho de Ministros e Comissão) e um poder judicial. Desta forma, é assegurado esquema de pesos e contrapesos de controlo institucional.
Quanto à produção normativa na União esta é efectuada segundo dois métodos; o comunitário e o intergovernamental. O método comunitário tem como característica estar apenas dependente dos instituições da União para a sua implementação (iniciativa, pareceres, poder judicial, actos self-executing) e tem visto arecrudescer as áreas onde se vota por maioria qualificada. Os limites do método comunitário são os princípios da subsídariedade, proporcionalidade e especialidade. O método intergovernamental, por seu turno, tem a sua produção de uma forma híbrida, com uma parceria entre instituições comunitárias e nacionais (iniciativa, pareceres, poder legislativo, poder executivo e judicial). Os votos no método intergovernamental são por unanimidade ou maioria qualificada reforçada. Dado nem sempre se encontrar no processo de produção normativa da União estes métodos na forma pura há autores que defendem a existência de um terceiro método; híbrido.
Uma variante do processo de europeização é o princípio da subsidariedade (art.º 5 TCE). Aplicável aos domínios de competências concorrentes entre Estados e União, o princípio defende que a decisão deve ser tomada ao nível que melhor se aplica na prossecução dos objectivos. O princípio da subsidariedade é um bastião de defesa dos poderes soberanos do Estado Nação face à União. O princípio da especialidade defende que a CE actua nos limites das atribuições que lhe são conferidos e por fim o princípio da proporcionalidade declara que a acção da CE não deve exceder o necessário para atingir os objectivos.
Em jeito de conclusão poderemos inferir que o equilíbrio de interesses entre a União e os Estados fica garantido quando se reforça o método comunitário, se reforça o poder da Comissão, se assegura transparência no decision-making e no decision-shaping, no equilíbrio entre subsidiaridade e solidariedade e no papel coordenador do Conselho de Assuntos Gerais.
13. União – A estrutura dos Pilares
A União assenta em três pilares, o primeiro das Comunidades, e segundo o das políticas (PESC) e o terceiro o das formas de cooperação (Assuntos de Justiça e Administração Interna).
Ao nível do 1º Pilar encontramos as formulações de Cidadania europeia, o Mercado Único, a União Económica, a União Monetária, as Relações Exteriores e a Cooperação Reforçada. O pilar funciona com base no método comunitário, sendo a sua produção jurídica caracterizada pelos procedimentos de cooperação e co-decisão. O Pilar produz uma ordem jurídica própria com primado e aplicação directa nos ordenamentos jurídicos nacionais. Neste pilar funciona o triângulo institucional europeu, tendo os Estados Nacionais um intervenção marginal.
O 2º Pilar é composto pela política externa e de segurança comum, a política de defesa e a cooperação reforçada. Neste pilar não funciona o triângulo institucional, não funcionam os princípios da ordem jurídica comunitária, nem os procedimentos de voto em Conselho de Ministros. Como resultado o método intergovernamental impera sobre o primado da unanimidade (admitindo porém excepções). A produção normativa assume a forma de Princípios e Orientações Gerais, Estratégias Comuns, Posições Comuns e as Acções Comuns.
O 3º Pilar compõem-se pela cooperação policial, judicial e cooperação reforçada. Também aqui não se aplica o triângulo institucional comunitário. Este pilar não produz ordem jurídica própria, tendo as decisões que ser tomada por uma dupla maioria no Conselho de ministros (Estados e de votos). A produção normativa assume a forma de Decisões-Quadro e Decisões, sendo os procedimentos de implementação quase de cariz nacional. Contudo, com a inclusão da "cláusula de passarela" temos vindo a assistir a uma crescente comunitarização do pilar, muito também graças ao acervo de Schengen. Realizações como a Europol, ou ainda as políticas de asilo, imigração e circulação de pessoas têm igualmente patrocinado essa comunitarização.
14. Portugal na União
O sucesso de Portugal na UE tem de ser avaliada num prisma triplo: a performance económico ou financeira, a capacidade de europeizar o interesse nacional no interesse comunitário e influir nos órgãos comunitários.
Ao nível do primeiro pilar Portugal tem vindo a endogeneizar os interesses comuns no interesse nacional (vindo em contramão), seguindo a filosofia do "bom aluno". Foi assim, com o Mercado Comum, como o foi no processo de convergência da UEM, no processo de entrada no pelotão da frente do Euro (perde de parte substancial da soberania nacional), como o é agora no PEC. Esta inversão de interesses teve como contrapartida o incremento da sua performance económico-financeira.
No 2º Pilar tem cumprindo as suas obrigações no quadro dos compromissos assumidos internacionalmente, e tem conseguido criar agenda como foi com a inclusão do caso timorense.
No 3º Pilar Portugal foi signatário do acervo de Schengen, bem como europeizou os seus interesses, em particular no domínio da cooperação judicial.
Ao nível das instituições Portugal pode adoptar 3 posturas; bloquear a decisão, pedir períodos derrogatórios e europeizar o interesse nacional. A primeira posição decorrente do compromisso do Luxemburgo deverá ser entendida como uma safety net institucional. A Segunda deverá assinalar a especificidade de Portugal, podendo ser conjugado com opções de opting-out. A terceira é a mais consiste numa lógica europeização de Portuga.
Em tese defende-se que o interesse nacional se integra mais facilmente nos interesses comuns da União, com o aprofundamento das competência da União, revitalização da Comissão, criação de uma Segunda câmara, recolocação o Conselho Europeu no centro da decisão estratégica europeia e combate à Europa do directório. A par destas medidas de ordem institucional, Portugal deverá pugnar pelo respeito do princípio da subsidariedade, e lutar por uma óptica solidária (com revitalização das políticas de coesão). Contudo, estes desígnios só serão atingidos perante uma crescente credibilidade das propostas portuguesas e influência nas instituições comunitárias, em particular nos processo de decision making e decision shaping. Subsidariamente Portugal deve promover os seus funcionários para os altos cargos da euroburocracia (direcções gerais) e "europeizar" a sua própria Administração. Numa análise prospectiva defende-se que Portugal, defenda os seus interesses via crescente participação na New European Governance (vide infra).
15. De Amsterdão a Nice – O Método Incremental
Cansada dos efeitos neofuncionalistas, a União nos tratados de Amsterdão e Nice descansou, seguindo um método incremental das realizações, feitas de resto a passos curtos. A falta de ambição europeia reflecte-se na não inclusão da Carta dos Direitos Fundamentais no Tratado de Nice e numa postura defensiva na elaboração da Agenda 2000. De resto ao questionar o seu papel no Mundo pós-guerra fria, a Europa descobriu a necessidade de se adaptar ao processo de alargamento a Leste, visando estabilizar geopoliticamente a sua zona de influência.
16. Portugal No Pós-Nice
Saída de Nice com uma estrutura apta para o alargamento, a Europa viu-se confrontada com uma postura negocial portuguesa, que defendia não só o seu interesse próprio, mas dos Estados Pequenos na sua generalidade. Contra a Europa do directório, Portugal defendeu uma Europa onde os Estados médios possam Ter poder de decisão. Esta postura foi justaposta com uma solidariedade para com os novos membros vindos do Leste, apesar de Portugal ser claramente um dos perdedores com a sua adesão.
17. Convenção – O Retorno à Res Publica e à Cidadania
A Convenção sobre o futuro da Europa marca uma nova forma de construção europeia: o método convencional. Testado na elaboração da Carta dos Direitos Fundamentais, o método convencional permite ampliar o debate para novos actores e confrontar num espaço de debate público europeu o modelo de construção europeia. Esta nova Agora é o renascer da Res Publica Europeia, e a criação de um espaço de afirmação da cidadania europeia. Para ficar ou esquecer, o futuro o dirá.
18. Tradição na Contradição: Estado Nação vs. Globalização
Com o advento da globalização regressámos às grandes utopias planetárias. Por ora, a globalização parece querer convencer-nos que estamos próximo da "república mercantil universal" de Adam Smith. O mercado teria em vias de triunfar onde os grandes impérios e religiões falharam. O Estado Nação parece desmembrar-se na sua própria entropia. Num tríplice movimento, o Estado tradicional desterritorializa-se, desnacionaliza a sua economia e destatiza a sociedade.
A crise do Estado Nacional manifesta-se pela simples constatação de que a economia e a sociedade reproduzem-se por cima das fronteiras nacionais, e a territorialidade política reproduz-se no interior das próprias fronteiras nacionais. Temos a legitimidade e a legalidade prisioneiras do princípio da territorialidade, de um lado, enquanto economia internacional e a sociedade transnacional se movimentam, por regulação de instâncias sem legitimidade democrática, por outro.
Sejamos optimistas e consideremos que se trata de uma crise de maturidade do Estado Nação, de uma organização política em movimento de reforma, que perderá o seu monopólio políticos e de autoridade de coacção, nos planos interno e internacional, que está caminhando para o papel de agente principal da sociedade cosmopolita, assente numa paz perpétua tipo Kantiana, apesar de envergonhada, na experiência histórico-política da união dos Povos da Europa.
19. O Estado Nação Portugal Na Globalização: De Pequeno Estado a Estado Exíguo
Uma pequena economia aberta ao exterior, price-taker no comércio internacional, com baixa diferenciação no comércio intra-industrial, muito dependente de IDE para a produção de novos clusters, excêntrica do ponto de vista geoeconómico após o alargamento a Leste, Portugal pode transformar-se de pequeno Estado em Estado exíguo.
As características deste Estado pós-Moderno são uma base territorial móvel, uma base patrimonial com respeito pelo princípio da não discriminação, uma base política de nacionalidade de cariz multicultural, multiétnico e multicultural, uma base jurídica com a superioridade e o primado do direito internacional, uma base económico-financeira que com acrescente mobilidade dos factores e das mercadorias transformaria o território nacional numa "jangada de pedra", uma base sociofiscal reduzida com a deslocalização das produção. Em síntese, poderemos vir a ter uma situação insustentável de Estado exíguo com Nação a mais e economia a menos.
20. União: Uma Análise Prospectiva - A Síntese da Dialéctica Estado Nação vs. Globalização
Nesta encruzilhada de desordem internacional e ordem comunitária, a União Europeia tem uma responsabilidade essencial e decisiva. A União tem de ser potência no plano internacional para ser regulador acreditado no plano interno. A deslocalização das funções do Estado está no cerne do debate politico-institucional da União e do Estado pós-Nacional, mesmo na ausência de atribuições e competências explicitas em sede supranacional, devido, justamente, à natureza transnacional dos problemas que a globalização arrasta. Em resumo, a reforma das instituições europeias e do Estado pós-nacional são duas faces da mesma moeda.
A União Europeia já é uma potência civil devido ao amplo leque de instrumentos que dispõem para exercer retaliação contra países terceiros com os quais mantém um leque muito variado de acordos bilaterais e regionais. A questão crucial que permanece é a transmutação eventual da união Europeia, de actor civil original para uma potência político-militar-diplomática. De facto, porque não detém responsabilidade política internacional directa, a União liberaliza mais do que organiza. Ela vive a obsessão do dilema do prisioneiro: de um lado o multilateralismo do regime globalitário tipo-OMC, do outro está limitada pelo regime bilateralista dos Estados Membros que a compõem. Entre o regime globalitário e os modelos de integração regional, a União Europeia, através da sua política económica, interna e externa, ensaia uma governação global que articula múltiplas territorialidades, supranacionais, inter-tregionais e infranacionais (Multi-Level Governance). O primeiro passo deverá consistir em assegurar o êxito da reforma da governança a nível interno por forma a salientar a necessidade de mudança a nível internacional. Sem povo (ou se quisermos com um demos sem um ethnos), nação ou sociedade civil europeia a montante, e sem projecto, identidade ou destino mobilizador a jusante, podemos no limite ser optimistas nas abstracções políticas que são o constitucionalismo europeu e a integração europeia. O mais fácil ficou para trás, o mercado único, a moeda única nada mais representam que o espaço de trocas da história longa do capitalismo ocidental que remonta aos Descobrimentos. O sonho e novidade reside na construção europeia, não só espaço de trocas mas também espaço político.
Em síntese, a Nação, o Estado e a União são vértices de um triângulo que não será por agora equilátero, mas cujos vértices têm um interesse comum: ter um papel de player no contexto da Globalização, algo que per si dificilmente conseguiriam.
21. Dos interesses comuns individuais aos interesses comuns colectivos ou do Estado Nação à União
No âmbito do processo de reforma institucional da União, deveria haver pelo menos duas acepções possíveis para a expressão "interesses comuns". Um tipo de interesses comuns resultam da simples existência de outros Estados, interesses que têm afinal a haver com a garantia de um Estado não ser prejudicado pela acção do outro. Serão os interesses comuns colectivos que contemplam a defesa, o ambiente, entre outros. Outra concepção de interesses comuns é a que considera que existem em todos os Estados, mas que continuariam a existir mesmo num Estado isolado. Serão os interesses comuns individuais e estariam nesta esfera, a cultura e a educação. Certo é que a distinção entre os conceitos milita num espaço ténue.
Em termos institucionais os interesses comuns colectivos seriam prosseguidos por entidades que ultrapassam o nível nacional (não se discutindo pois o seu nível supranacional ou intergovernamental). Os interesses comuns individuais, dado não existir razão para merecer debate a nível supra nacional, deveriam seguir o princípio do intergovernamentalismo. Mais, no prosseguimento dos interesses comuns individuais, o princípio da subsidiariedade implicaria uma distribuição rawlseana do bem estar dado que a decisão só seria efectiva se pelo menos um Estado ficasse melhor e nenhum Estado ficasse pior. A única forma de garantir que nas decisões nenhum país fica pior, é evidentemente atribuir a todos os países o direito de veto. A possibilidade de veto é uma garantia à partida de que as decisões são verdadeiramente negociadas e não impostas.
22. The New European Governance
A União na sua expansão de competências tenderá a criar um conjunto de bens públicos transnacionais e promover o espaço público europeu. Face a essa realidade urgirá definir ex-ante novos modos de governação. Com a comitologia passamos dos métodos globais aos métodos parciais de governação. Os comités cumprem com a Comissão a função executiva do método comunitário. Os Estados Membros recuperam assim a capacidade de promoverem os seus interesses nacionais. As Agências de regulação aparecem como uma terceira entidade em que os Estados poderão Ter o poder discricionário de delegar ou não a sua competência. O modo de governação aberta, não sendo uma novidade, tende a tornar-se num modo de governação próximo do método intergovernamental. A soft governance enquanto modelo prospectivo introduz o Estado Nacional no policy cicle, através da consulta. As cooperações reforçadas, não sendo, novidade mas permitindo ao Estado Nacional exercer o seu poder de veto dá-lhe a possibilidade de definir a geometria futura da União. Conclui-se com a peça fundamental do Estado Nação que é a possibilidade que este goza de rever os tratados.
23. União – Problemas Emergentes
Se o Estado Nação necessita da União, o recíproco também é verdadeiro. A União Europeia ainda não conseguiu criar um Espaço Público Europeu, associado a uma Cidadania Europeia plena (e não de mera enunciação de Tratados). Essa constatação emerge seguramente da quase ausência de Bens Públicos Europeus. Será pois fundada nos princípios de cidadania nacional e nos bens públicos da Nação que a União erguerá os seus bens públicos.
Mais, a Europa das Nações em tendência deverá dar lugar à Europa das Regiões, sendo certo que estas se encontrarão ao nível infra nacional até à constituição das Euroregiões. Diremos pois que a União sofre de um problema de "poderes intermédios".
Recorrente é a questão do défice democrático e da falta de legitimidade da União. Quanto ao défice democrático, esse a existir terá origem no próprio Estado, por não raras vezes bloquear a participação cívica nos seus Parlamentos. Assim, para suprir o défice democrático da União deverá ser ultrapassado com apoio dos próprios Estados, por exemplo, através da criação de uma Segunda Câmara. Colocada a questão nestes termos a legitimidade emergirá per si.
Em voga desde as guerras balcânicas, e de novo na agenda com a guerra no Iraque, está a incapacidade da União assumir a sua política de defesa comum. Há um novo poder constituinte à escala mundial (EUA) que promove a existência de um regime unilateralista e um Estado Securitário. Sem personalidade jurídica externa a União assiste à convulsão dos Estados Nacionais no seu interior. A criação de uma verdadeira PESC implica a criação de um exército comum, do que decorre a cobrança de um imposto tipo federal, dado não ser credível os Estados Membros financiarem um duplo exército; o nacional e o europeu. A par deste medida estruturante de longo prazo, deveria a União caminhar para a tomada de posições comuns na NATO, podendo a UEO ser o seu pilar.
Conclui-se com a necessidade das elites europeias conseguirem criar uma identidade europeia, cuja criação estará muito dependente a montante da criação curricular sobre temas europeus nos Estados Nacionais e projectar o ideal europeu a jusante.
24. Portugal – Um Estado Em Rede Mas Em Múltiplas Redes
Conforme defende Mário Soares, Portugal é uma Nação com um peso superior à sua dimensão. Sendo essa realidade um facto inegável, tal deve-se não só á presença de Portugal na União, onde de país de média dimensão nos projectamos numa potência económica à escala global. Mas também pela nossa múltipla pertença ao Mundo. Portugal na defesa dos seus interesses nacionais deve ter capacidade dos europeizar num sistema de Estado em rede (se quisermos numa atitude tipo agir no Kosovo e não influir em Angola). Mas Portugal também deve ser um Estado em múltiplas redes (ex.: CPLP) de modo a projectar o seu interesse nacional.
Em prospectiva dir-se-à podendo Portugal estar em trânsito para uma IV República, esta fará pela primeira vez a fusão entre o Antigo Império (Colonial) e o "Novo Império" (sendo aqui equiparada a União a um Império de um novo tipo).
25. Conclusão
Do Estado Moderno ao Estado Contemporâneo. Da origem divina para a soberania. Do poder absoluto para o poder limitado. Da política de imposição para a política de consentimento. Do laço providencial ao contrato social. Do escravo ao cidadão e deste ao "ciberdão" (cidadão internauta). O Estado Nacional parece caminhar para porto seguro, abrindo-se em novos arranjos políticos de que a União Europeia é o exemplo mais paradigmático.
A História longa demonstra que as Cidades Estado deram lugar aos Estados Nação. Mais que ruptura, o Estado Nação está em continuo para a União num megatrend de longa duração.
Portugal, por vezes em antecipação, outras com atraso segue essa tendência europeia de muito longo prazo. Deste modo a europeização dos seus interesses nacionais na coisa pública europeia é a melhor forma de ultrapassar a sua pequena dimensão física, económica e política. Contudo, face à sua hiperidentidade lusitana, progenitora de novos mundos ao Mundo abre outras soluções e outros arranjos institucionais no contexto internacional (cooperação) que não a via única da integração.


Nuno Gomes Ferreira



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